domingo, 22 de janeiro de 2012

O AVÔ – lenda da Mitologia Estoniana


O Avô vivia lá em cima, no céu, entre as estrelas e atrás da lua. O Avô era sábio,  forte e bom, mas era velho, e às vezes sentia-se cansado.
O Avô criou os Kalevs para ajudá-lo. Havia muitos Kalevs, e eram seres gigantescos. Viviam juntos, como irmãos e irmãs, e ajudavam o Avô no que se fazia necessário.
O Avô disse aos Kalevs: "Resolvi criar o mundo".
Os Kalevs responderam: "O que decidistes, em vossa sabedoria, não pode ser mau".
Então, o Avô trabalhou, enquanto os Kalevs dormiam Quando eles acordaram, viram o mundo que o Avô criara, mas o Avô estava cansado, e repousava.
Os Kalevs esperaram. Respeitavam muitíssimo o Avô, e não queriam incomodá-lo.
O Avô acordou, e disse aos Kalevs: "Este mundo que eu criei é massa informe e rústica. Vossa tarefa é modelá-lo e adorná-lo. Vou guarnecê-lo com vários animais e depois criarei o homem, para governar tudo. Criarei o homem fraco, para que ele não se gabe de sua força. Entretanto, soprarei meu hálito sobre a fronte de cada homem, a fim de que ele possa dominar o mal. Depois disso, permanecerei no céu. Não interferirei na vida da terra.
Vós, Kalevs, deveis ser amistosos para com aqueles que eu criei, e ajudá-los a não se resignarem com o mal que existe na terra. Não destruirei o mal, pois ele será a medida e o estímulo para o bem.
Vós, Vanemuine — e o Avô chamava o mais velho e mais sensato dos Kalevs — vós deveis tomar vossa harpa e descer do céu. “Na terra, ensinareis a arte do canto ao povo terreno”.
Assim, o mais velho dos Kalevs desceu do Paraíso e começou a tocar sua harpa na Montanha Toom, onde crescem os carvalhos sagrados. Todas as coisas vivas que têm alma vieram aprender a cantar e cantaram hinos de louvor ao mundo que o Avô fizera. Cantaram o mistério e a grandeza do céu, e a bondade do Avô. Cantaram a beleza do Rio do Paraíso, e a força dos poderosos ventos do céu. Quando todos aprenderam as canções, o mais velho dos Kalevs voou de volta ao Paraíso, com sua harpa. Jamais voltou a terra, mas deixou suas canções no coração da humanidade.
Agora, quando caminhamos nos bosques e ouvimos o farfalhar das ramas, eis que ele é o apagado eco da harpa do mais velho dos Kalevs. O sussurrar do rio e o suspiro do vento são a onda sonora saída das cordas de seu instrumento. E a força daquele cantor celeste é ainda ouvida no quebrar das vagas do oceano.
Todas aquelas canções do céu estão no coração dos que vivem na terra, pois o mais velho dos Kalevs colocou suas cantigas ali, quando o Avô mandou-o com sua harpa, há tanto, tanto tempo.
Não apenas os seres humanos, mas todos os pássaros e animais recordam aquela grande música, e, quem sabe? — talvez mesmo os peixes do mar recordem silenciosamente aquela música estranha que chegou até eles, quando o Avô mandou o mais velho dos Kalevs descer a terra, com sua harpa.
Fonte: Maravilhas do conto mitológico. Adaptação de Nair Lacerda. Cultrix, 1960.

MITO DE OSÍRIS E ISIS - Mitologia Egípcia


Osíris e Ísis foram induzidos a descer sobre a terra, a fim de espalhar dádivas e bênçãos sobre os seus habitantes.  Isis ensinou-lhes, primeiro, o uso do trigo e da cevada, e Osíris fez os instrumentos de agricultura e ensinou aos homens como usá-los, assim como atrelar o boi ao arado.
Depois, deu leis aos homens, a instituição do casamento, uma organização civil, e explicou-lhes como deviam adorar os deuses.
Tendo, assim, feito do vale do Nilo uma região feliz, reuniu uma hoste, com a qual foi distribuir suas bênçãos ao resto do mundo. Conquistou nações por toda a parte, mas não com armas, apenas com música e eloqüência. Seu irmão, Tifão, viu aquilo, e encheu-se de inveja e malícia, procurando, durante sua ausência, usurpar-lhe o trono. Isis, porém, que mantinha as rédeas do governo em suas mãos, frustrou-lhe os planos.
Ainda mais amargurado ele resolveu matar o irmão, o que fez da seguinte maneira:
Tendo organizado uma conspiração de setenta e dois membros, foi com eles à festa que estava sendo celebrada para comemorar a volta do rei. Fez com que uma caixa, ou cofre, fosse trazido para ali — e ele o tinha mandado fazer exatamente do tamanho de Osíris, — declarando que daria aquele cofre de madeira preciosa, fosse a quem fosse que coubesse perfeitamente nele.
Todos os presentes tentaram em vão, mas assim que Osíris entrou no cofre, Tifão e seus companheiros fecharam-lhe a tampa e atiraram-no ao Nilo.
Quando Ísis soube do assassinato cruel chorou e lamentou-se, e, com os cabelos cortados, vestida de preto e batendo no próprio peito, procurou diligentemente o corpo do marido.
Naquela procura foi materialmente assistido por Anúbis, o filho de Osíris e Neftis. Durante algum tempo procuraram sem sucesso, porque quando o cofre, levado pelas vagas para as margens de Biblos, ficou encravado nos caniços que cresciam à beira da água, o divino poder que resistia no corpo de Osíris comunicou tal força à moita, que ela cresceu como árvore poderosa, encerrando em seu tronco o ataúde do deus.
Aquela árvore, com seu sagrado depósito, foi logo depois cortada e levantada, como coluna, no palácio do Rei da Fenícia. Com auxílio de Anúbis e das aves sagradas, Isis teve, por fim, conhecimento daqueles fatos, e foi para a cidade real. Ali, ofereceu-se no palácio, como serva. Sendo admitida, libertou-se de seu disfarce e apareceu como deusa, cercada de trovões e relâmpagos.
Batendo na coluna com a mão, fendeu-a pelo meio, e encontrou o ataúde sagrado. Apoderou-se dele, e voltou, escondendo-o na profundeza de uma floresta. Tifão, porém, descobriu o fato, e, cortando o corpo em catorze pedaços, espalhou-os para todos os lados. Depois de exaustiva busca, Isis encontrou treze desses pedaços, pois os peixes do Nilo haviam comido o décimo quarto.
Aquele pedaço ela o substituiu por uma imitação, feita de madeira de sicômoro, e enterrou o corpo em Filoe, que daí por diante tornou-se o grande local de enterramentos da nação, e o ponto de peregrinações, que vêm de todos os recantos do país. Um templo de inimitável beleza foi ali erguido em honra do deus, e em cada um dos lugares onde seus membros tinham sido encontrados, templos menores levantaram-se, para comemorar o acontecimento.
Osíris tornou-se, depois disso, a deidade tutelar dos egípcios. Dizem que sua alma foi habitar o corpo do touro Ápis, transferindo-se, por ocasião da morte do animal, para o corpo daquele que o sucedesse.
Ápis, o touro de Mênfis, era adorado com a maior reverência pelos egípcios. O exemplar, que deveria ser Ápis, fazia-se reconhecível através de certos sinais. Precisava ser bem preto, com um quadrado branco na fronte, e outro, em forma de águia, nas costas. Sob a língua devia mostrar uma excrescência carnosa, na forma de um escaravelho.
Assim que um touro dessa forma assinalado era obtido pelos que o procuravam, colocavam-no em edifício especial, de frente para o oriente, e alimentavam-no com leite durante quatro meses. Quando esse prazo expirava, os sacerdotes dirigiam-se, no dia da lua nova, para a habitação dele, com grande pompa, e saudavam-no como Ápis. Era, então, colocado num navio magnificamente ornamentado e levado pelo Nilo abaixo, para Mênfis, onde um templo, com duas capelas e um pátio para exercício, a ele era dedicado. Faziam sacrifícios em sua honra, e, uma vez por ano, mais ou menos na época em que o Nilo começava a subir, uma taça de ouro era atirada ao rio, e grande festival organizado, para comemorar o aniversário do animal sagrado. O povo acreditava que durante aquele festival, os crocodilos esqueciam sua natural ferocidade e tornavam-se inofensivos.
Havia um único inconveniente na vida feliz do boi Ápis: não lhe era permitido viver além de um certo período, e, se ao atingir a idade de vinte e cinco anos ele ainda estava vivo, os sacerdotes afogavam-no numa cisterna sagrada, e depois enterravam-no no templo de Serápis.
Por ocasião da morte daquele boi, se ela ocorresse de forma pouco natural ou violenta, o país inteiro ficava cheio de tristeza e lamentações, que duravam até que seu sucessor fosse encontrado.
Fonte: Maravilhas do conto mitológico. Adaptação de Nair Lacerda. Cultrix, 1960.

A FESTA DAS LANTERNAS - Conto popular da China


Wang-Chi era um lenhador, cuja pobreza não o impedia de considerar-se muito feliz, em companhia de sua mulher e de seus filhos, um menino e uma menina.
Certo dia, aquele em que todos os anos realizava-se uma procissão, à qual o povo comparecia provido de lanternas, dispunha-se o lenhador a partir para o seu trabalho, pela madrugada, quando seus filhos o fizeram lembrar que a procissão era naquela noite. Portanto, ele que cuidasse de não adormecer no bosque, para não se atrasar. Wang-Chi prometeu-lhes que assim faria, e partiu com o machado ao ombro.
Ao meio-dia o lenhador procurou um lugar onde pudesse descansar, e com esse fim foi entrando para o coração da floresta, onde supunha encontrar mais frescura e conforto. Deparou com uma caverna e nela entrou, verificando que havia ali dois velhos jogando xadrez, e tão abstraídos em seu jogo que nem sequer perceberam que alguém entrava. Estavam sentados sobre pedras e tinham compridas barbas brancas, que lhes chegavam quase que aos joelhos.
Wang-Chi, assombrado, aproximou-se deles, cumprimentando-os, mas, como os anciãos não correspondessem, não quis insistir, contentando-se em sentar-se, por sua vez, sobre uma pedra. Sentia-se como que fascinado, interessado de maneira estranha pelo jogo daqueles velhos, e tanto que chegou a esquecer-se do fim com que ali entrara. Percebendo que os dois homens estendiam de vez em quando a mão para um montinho de pedras, comendo-as, também ele fez o mesmo. Não eram pedras, naturalmente, e sim um manjar que saciava a fome e a sede, pelo que o lenhador serviu-se largamente dele. Achou estranho o fato de estarem às barbas dos velhos, que no momento de sua chegada alcançavam apenas os joelhos, roçando agora pelo chão.
Surpreendido, exclamou:
— É inexplicável que barbas possam crescer tanto, em tão pouco tempo.
Então, um dos velhos fez ouvir sua voz, pela primeira vez:
— Há quanto tempo achas que estás aqui?
— Uma meia hora — respondeu Wang-Chi.
— Pois bem — disse o ancião — também pode ser que se tenham passado dias, ou meses, ou anos: talvez, mesmo, séculos. É uma coisa que acontece quando se come deste manjar. Volta à tua aldeia e verifica, por ti mesmo, se não quiseres acreditar-me.
Mal Wang-Chi ouviu tais palavras atirou-se precipitadamente para fora da gruta. A princípio pensava que tudo aquilo fosse uma ilusão, mas assim que se foi aproximando de sua aldeia viu que os setores dos outrora simples campos surgiam agora como grandes ruas. Sua aldeia se transformara numa enorme cidade. Não havia dúvida: muitos anos acabavam de se passar, como se fossem minutos.
Apesar disso, e tal como naquele dia em que o pobre lenhador deixara seu lar para ir ao trabalho, preparavam se todos para a festa das lanternas. ‘ Aquilo o encheu de esperanças. Talvez — disse ele consigo — eu esteja sob a influencia de uma alucinação, já que a procissão vai passar daqui a pouco, tal como me disseram meus filhos.
A esperança, entretanto, pouco durou, já que lhe foi impossível localizar sua própria casa: ninguém sabia dar-lhe notícias de sua família, nem mesmo encontrou alguém que a conhecesse, e através de quem pudesse inteirar-se do que acontecera durante sua ausência.
Tomado de imenso desalento, Wang-Chi vagava sem rumo pelas ruas, como que tomado de loucura. Que fazer?
Era quase noite, a procissão começava a adiantar-se pelas ruas da cidade. O oscilar de milhares de lanternas enchia de pontos luminosos as sombras do crepúsculo. Ouvia-se o rumor de pés sobre as calçadas, e os acordes das músicas e o ritmo dos cânticos.
Wang-Chi, comprimido entre a multidão que se aglomerava para ver a passagem da procissão, sentiu o pranto subir-lhe à garganta apertada, um pranto tão amargo que nem mesmo podia alcançar-lhe os olhos.
De súbito, uma velha colocou-se junto dele. Deveria ter uns oitenta anos. Para o lenhador foi como que uma janela aberta à esperança, aquela presença. Pelo menos, seria uma possibilidade de orientar-se, de sair de sua horrível incerteza. Por ela soube, com efeito, que muitos anos se haviam passado. Contou-lhe a anciã que ouvira sua avó relatar, quando ela era menina, o caso de um lenhador que fora encantado pelos gênios do bosque, no dia da festa das lanternas, deixando sua esposa e filhos na mais completa miséria. Que então, desde aquele dia, todos os anos, seguiam a procissão, como recordação do triste fato, uma mulher, um me nino e uma menina, levando nas mãos uma concha de cozinha, vazia, a fim de advertir a todos para que se guarde sem dos malefícios dos gênios do bosque.
Tais palavras atiraram Wang-Chi no mais negro desespero. Desanimado, abandonou a cidade e voltou a gruía. Os velhos continuavam, em seu jogo. O lenhador, aos gritos, disse-lhes que precisavam ajudá-lo, já que se via naquela situação por culpa deles.
De início pareceu que os anciãos nem mesmo o ouviam, mas tanto o homem insistiu, sacudindo-os, além disso, que, de má vontade e como que apenas para se verem livres dele, os velhos disseram-lhe que havia um elixir, cuja virtude era dar o dom da eternidade a quem o bebesse.
O lenhador não se satisfez com aquilo. Disse que não desejava viver eternamente, e sim voltar ao tempo em que havia descoberto a gruta, e encontrar-se novamente com sua mulher e seus filhos.
De tal maneira azucrinou os velhos, que eles acabaram por ensinar-lhe uma fórmula com a qual obteria o que desejava: tratava-se de misturar o elixir da eternidade, que uma lebre fabricava na Lua, com a água que pela boca soltava o Dragão Celestial, que morava numa nuvem.
Wang-Chi, desesperado, achou que nada obteria, mesmo, daqueles velhos. Tratava-se, sem dúvida, de espíritos malignos, que se divertiam com a sua desgraça, pois outra coisa não poderia explicar aquilo de mandá-lo à Lua e às nuvens, ele, um pobre mortal que se encontrava em situação tão desastrosa, em vez de dar-lhe uma solução lógica para o caso.
Dispunha-se a regressar à cidade, presa de grande desalento, quando apareceu um grou enorme, que veio pousar na entrada da gruta. Os velhos asseguraram ao pobre Wang-Chi que com aquele pernalta ele conseguiria alcançar a Lua e as nuvens.
Sem se deter a pensar, o lenhador montou sobre o dorso da ave, que, imediatamente, retomou seu vôo.
Subiram primeiro à nuvem onde o Dragão Celestial morava. O monstro estava adormecido. Como conseguir que soltasse água pela boca? Wang-Chi teve uma idéia feliz: pôr fogo no capim sobre o qual o Dragão se deitara. Com isso não tardou ele a despertar, e levantando-se com rapidez soltou água pela boca, sobre as chamas. Com tal ardil pôde o lenhador encher a garrafa que lhe tinham dado os anciãos. Tornando a cavalgar o grou, rumou para a Lua.
Ali chegados, foi Wang-Chi a procura da lebre e contou-lhe seu caso. O animal, que o escutara com grande atenção, abriu um buraco no solo e mandou que o lenhador espiasse por ele: e eis que Wang-Chi viu, claramente, a cidade que anteriormente fora a sua aldeia. Logo depois a lebre fez outro buraco, e, olhando por ele, Wang-Chi viu as casas, o campo, as ruas de sua querida aldeia, tais como’ os havia deixado no dia em que desaparecera, afastando-se deles por tantos anos. Além disso, via sua mulher e seus filhos. Esperavam-no com lanternas, prontos já para ir à procissão. Wang-Chi não pôde conter lágrimas que eram, ao mesmo tempo, pela alegria de tornar a ver os seus, e pela dor de tê-los perdido. A lebre, então, fez o elixir, misturou-o com a água que estava na garrafa, e quando tudo ficou pronto, o buraco por onde Wang-Chi vira a aldeia foi aumentando, até chegar a ser de tamanho natural. O lenhador viu-se diante de sua família, que o aguardava como se nada tivesse acontecido.
— Por que demoraste tanto? — limitou-se sua esposa a perguntar.
Wang-Chi abraçou todos, em silêncio, sufocado por uma emoção profunda, mas sem desejar que ela transparecesse. Tomou, com toda a naturalidade, a lanterna que seu filho guardara para ele, e com os três encaminhou-se para a procissão que começava a chegar, com o rumor de passos, o acorde das músicas e o ritmo dos cânticos.

HANA-SAKA-JIJI - O velho que fazia florescer as árvores mortas


 muito tempo, havia um bom velhinho e sua esposa, que tinham como companhia um cão muito estimado por eles. Um dia, aquele cão foi para o jardim, e ali começou a latir e a sacudir a cauda em determinado ponto, insistentemente. Os velhinhos puseram-se a cavar ali e encontraram ouro e prata e muitas outras coisas preciosas.
Tinham eles vizinhos que eram perversos e cobiçosos. Quando esses vizinhos tiveram notícia do ocorrido, pediram o cão emprestado. Levaram-no para sua casa, ofereceram-lhe várias gulodices e pediram-lhe que lhes mostrasse um lugar onde houvesse tesouros.
Mas o cão, que fora perversamente tratado por eles em tempos idos, não quis comer coisa alguma. Os velhos ficaram zangados, amarraram-no com uma corda, pelo pescoço, e puxaram-no para o jardim. Tudo em vão. Finalmente, porém, o cão parou e pôs-se a olfatear determinado ponto. Os ambiciosos mais que depressa desataram a cavar a terra ali, mas só encontraram imundície e carniça, a ponto de precisarem fugir, tapando o nariz. Furiosos com aquele desapontamento mataram o cão.
O bom ancião que o emprestara, não o vendo voltar, foi indagar sobre o paradeiro do animal, recebendo como resposta que ele fora morto e estava enterrado junto às raízes de um pinheiro. Tomado de grande tristeza, o pobre homem, que muito amava seu cão, foi levar comida à sepultura dele, queimando ali incenso e adornando-a com flores.
Mas sua honestidade e virtude depressa foram recompensadas, pois o cachorro apareceu-lhe em sonhos e disse-lhe:
"Faze com que o pinheiro, sob o qual estou enterrado, seja posto abaixo, e da madeira dele fabrica um almofariz, que usarás."
O velho fez o que lhe recomendava seu cão, e — que espanto! — quando socava seu arroz naquele almofariz, os grãos transformavam-se em moedas de ouro, pequenas e grandes.
Claro está que os maldosos vizinhos logo tiveram conhecimento do caso e mais que depressa pediram o almofariz emprestado. Quando foram usá-lo, porém, todo o seu arroz transformou-se em imundície. Furiosos, partiram o objeto precioso, queimando-o depois.
Pela segunda vez o cão apareceu em sonhos ao velho dono, e contou-lhe o que acontecera ao almofariz. Disse–lhe, porém, que se ele conseguisse reunir as cinzas do objeto tão vilmente destruído, poderia, atirando uma pitada daquela cinza sobre uma árvore murcha, devolver-lhe a vida, fazendo-a desabrochar e frutificar novamente.
Tendo conseguido trazer para a sua casa um punhado das cinzas mágicas, o velho experimentou atirar uma pitada sobre a cerejeira morta de seu pomar. Imediatamente ela começou a brotar, cobriu-se de flores cor de rosa, anunciando a proximidade dos belos frutos tão queridos. Diante daquilo o velho começou a percorrer a região, fazendo-se conhecer como o ancião que tinha o poder de restituir a vida às árvores mortas.
Certo daimyo — barão feudal — teve conhecimento daquilo e mandou chamar o velho, que lhe mostrou seu poder, fazendo desabrochar uma ameixeira morta e cobrindo de flores várias cerejeiras murchas. Vendo aquilo, o daimyo deu-lhe altas recompensas e o ancião voltou para casa, muito feliz e próspero.
Mais uma vez os maldosos vizinhos quiseram compartilhar da boa sorte dele. O homem mau reuniu todo o resto da cinza do almofariz que havia ficado em casa e levou-a numa cesta para a cidade mais próxima, anunciando-se como o velho que tinha o poder de restituir a vida às árvores mortas, e cobri–las de flores.
Vendo o senhor das terras que vinha pelo caminho, acompanhado de seu séquito, subiu depressa a uma árvore morta que ficava à beira da estrada. Os homens do séquito do senhor daquela cidade vieram à frente, exigindo que o ancião descesse da árvore, pois ninguém devia olhar para seu senhor de uma posição mais alta do que a dele.
O velho, contudo, insistiu em sua mentira, dando-se como mágico das árvores, o verdadeiro Hana-Saka-JiJi e, assim, permitiram-lhe que mostrasse sua habilidade.
Quando ele espalhou a cinza, porém, nem um só renovo ou gomo apareceu. Entretanto, tendo o vento soprado à cinza, eis que ela entra pelos olhos e pela boca do daimyo.
Furiosos, os homens da comitiva apoderaram-se do ambicioso velho intrujão e deram-lhe tremenda surra.
Fonte: Maravilhas do conto popular. Adaptação de Nair Lacerda. Cultrix, 1960.

O TIGRE DAS MONTANHAS KUMGANG - Conto coreano de animais fabulosos


Houve um tempo em que ali vivia um famoso atirador e caçador. Era tão bom atirador, que podia derrubar qualquer pássaro no vôo, quase sem fazer pontaria. Corças e javalis não eram o suficiente para aquele caçador, desde que entrassem no campo de mira de sua espingarda. Jamais se soube que ele falhasse um tiro.
Naquele tempo as Montanhas Kumgang estavam cheias de tigres. Muitas vezes os animais vinham das profundezas e roubavam não só cavalos e gado, mas até seres humanos. Mas não havia um único homem capaz de vencer os tigres. Muitos caçadores tinham dito: "Apanharei esses tigres’, e se tinham posto a caminho, com tal fim. Nenhum voltara. Tinham tornado-se presas dos tigres das Montanhas Kumgang-
Um dia, o famoso atirador disse:
— Agora, é a minha vez. Matarei todos os tigres das montanhas.
O caçador, assim dizendo, pôs-se a caminho, recusando-se a ouvir os que tentavam contê-lo.
O orgulhoso caçador andou e andou. Ao pé das montanhas encontrou uma hospedaria solitária. A proprietária da hospedaria viu o caçador, e disse:
— Olá, também tu vais servir de repasto aos tigres? Ouve o que te digo: é para teu bem que falo. Se gostas da vida, desiste dessa tua louca idéia.
Entretanto, o caçador recusou-se a ouvir. Em seu coração, disse, orgulhosamente:
— Com minha habilidade, não há tigre que me possa bater.
Em voz alta, o caçador disse à mulher:
— Velha, espere e veja. Voltarei daqui a pouco, trazendo um tigre tão grande como a montanha, em minhas costas.
E, rindo consigo mesmo, o caçador continuou subindo as montanhas.
Nunca mais o viram. Cinco anos se passaram. Dez anos correram. Mas o caçador não voltou.
Quando o caçador deixou o lar, ali ficara um filho dele, que acabava de nascer. Agora, estava um garoto, hábil com a espingarda. Realmente, tornara-se um atirador quase tão bom quanto seu pai. O jovem sabia bem qual a razão de sua orfandade. De há muito decidira em seu coração que ele próprio mataria a tiros o tigre que comera seu pai.
Quando chegou seu décimo quinto aniversário, o rapaz foi ter com sua mãe, e disse:
— Eu gostaria de me pôr a caminho das Montanhas Kumgang. Mãe, por favor, deixe-me ir.
Mas a mãe não queria perder seu filho. Com lágrimas nos olhos, tentou detê-lo:
— Mesmo um atirador famoso como teu pai foi comido pelos tigres. Como podes vingar a morte dele? Se fores, jamais voltarás. Isso é claro como a luz do dia. Deixa de pensar em coisas dessas e fica para sempre ao lado de tua mãe.
— Não se preocupe mãe. Eu encontrarei, sem dúvida, o tigre que comeu meu pai. Abatê-lo-ei a tiros, e vingarei a morte dele.
E o filho, ansiosamente, suplicou à mãe que o deixasse ir.
Finalmente, a mãe disse:
— Se queres tanto ir, faça como queres. Mas, primeiro, deixa-me pedir-te uma coisa. Teu pai costumava fazer-me ficar de pé, com o jarro de água na cabeça. Então, fazia pontaria para a asa do jarro, a distância de uma légua, e atirava, atingindo apenas a asa e sem espirrar água alguma. Podes fazer a mesma coisa?
Quando ouviu aquilo o jovem filho quis imediatamente tentar reproduzir o feito paterno. Fez a mãe ficar de pé, a uma légua de distância, com um jarro d’água na cabeça. Fez pontaria cuidadosa, mas falhou completamente o alvo. Então desistiu da idéia de ir para as montanhas e praticou mais três anos, com sua carabina.
Depois de três anos, tornou a tentar. Dessa vez conseguiu acertar na asa do jarro de água que estava na cabeça de sua mãe, sem espirrar uma gota que fosse.
Então, a mãe disse:
— Filho, teu pai era capaz de atirar no buraco de uma agulha à distância de uma légua. Podes fazer o mesmo?
O filho pediu à mãe que ficasse com uma agulha na mão estendida. Então, caminhou até a distância de uma légua, fez pontaria cuidadosa e soltou a bala. Falhou, entretanto, o buraco da agulha. Mais uma vez desistiu da idéia de ir para as Montanhas Kumgang, e começou a praticar outros três anos.
Ao fim dos três anos, tentou novamente a mesma proeza. Dessa vez, com um estalido de sua espingarda, o fundo da agulha caiu no chão.
Claro está que aquilo tudo que a mãe dizia ao filho eram mentiras. A mãe tinha pensado que se lhe contasse coisas assim acerca de seu pai, ele desistiria da idéia de vingá-lo. Mas seu filho tinha, agora, conseguido sucesso nas proezas que ela atribuíra ao marido. Mesmo a mãe não pôde deixar de se comover com aquele desejo fixo que o rapaz demonstrava de vingar a morte de seu pai, e acabou por consentir que ele fosse para as Montanhas Kumgang.
O filho ficou radiante. Imediatamente partiu para as montanhas. Ao pé delas, chegou à mesma pequena hospedaria onde seu pai se detivera, havia anos. A mesma velha ainda vivia ali. A anciã perguntou ao jovem o que ele pretendia fazer. Ele contou-lhe que seu pai fora comido pelos tigres e como praticara durante anos para vingar-lhe a morte
A velha disse, então:
— Sim, conheci teu pai. Era o maior atirador em toda a região. Estás vendo aquela árvore, ali distante? Pois bem, teu pai costumava virar-se de costas para aquela árvore, então atirar na folha mais alta do galho mais alto, por cima do ombro. Se não podes fazer a mesma coisa, como pretendes vingar-lhe a morte?
O filho do caçador, ao ouvir aquilo, disse que tentaria. Colocou a espingarda sobre o ombro, fez pontaria e atirou. Mas falhou. Viu, então, que assim não podia ser, e pediu à anciã que o deixasse ficar com ela durante algum tempo. Desde esse dia começou a praticar os tiros para a árvore, por cima do ombro, até ser capaz de acertar na folha mais alta do galho mais alto.
De novo a anciã disse ao filho do caçador:
— Só porque podes fazer isso, não significa ainda que atires melhor do que teu pai. Ora essa, se teu pai costumava colocar uma formiga no flanco de um rochedo, e então, da distância de uma légua atirava nela, sem sequer arranhar a superfície do rochedo! Por muito bom atirador que sejas tal coisa não és capaz de fazer.
O jovem, então, tentou fazer o que a anciã dissera que seu pai tinha feito. Falhou de novo, e teve que praticar mais três anos até conseguir o triunfo.
Naturalmente, tudo quanto à velha lhe dissera fora inventado, pois queria salvar o moço. Mas o filho do caçador, sem discutir, tinha praticado até poder fazer aquilo que ela dissera que seu pai tinha feito. A anciã ficou tomada de espanto e admiração.
— Agora, é seguro. Com tua habilidade, poderás, seguramente, vingar a morte de teu pai.
Assim dizendo, a anciã cozinhou muitos bolos de arroz para ele comer no caminho.
O filho do caçador agradeceu com sinceridade e começou a subir a passagem que levava ao coração das Montanhas Kumgang.
Comendo, à proporção que andava as bolas de arroz que a anciã fizera para ele, o jovem ia se internando cada vez mais profundamente nas montanhas. Durante dias e dias perambulou através da natureza selvagem. Afinal, as Montanhas Kumgang tinham doze picos e estendiam-se por sobre vasta área, e ele não tinha meios de saber onde o tigre se escondera. Em seu coração continuava rezando para ter a possibilidade de encontrar o tigre que comera seu pai, e continuou perambulando, sem qualquer destino exato, através da vasta cadeia de montanhas.
Um dia, enquanto o filho do caçador estava sentado numa grande rocha, descansando, um sacerdote solitário veio ter junto dele e perguntou:
— Perdoe-me, senhor, se tem uma pederneira e um fuzil pode emprestar-mos?
O filho do caçador tirou da bolsa de couro que trazia pendurada à cintura as duas coisas, entregando-as ao sacerdote. O padre fez fogo com a pederneira e o fuzil e acendeu seu cachimbo. Quando abriu a boca para aspirar a primeira fumaça, o jovem deu uma olhadela para dentro da Doca do padre. Ali viu caninos tais como têm os tigres.
— Seres humanos não têm tais caninos. Deve ser um tigre disfarçado — pensou o jovem, e, sem deixar que o padre visse, apanhou sua espingarda. — Mas se é realmente um homem? — ponderou o jovem. Hesitou por um ou dois momentos, depois sentiu-se subitamente seguro de sua suspeita, e, levantando a espingarda, atirou contra o peito do sacerdote.
Com um grito, o sacerdote caiu ao solo. Quando o jovem olhou para ele, viu, em lugar do padre, o corpo morto de um grande tigre.
Depois de se certificar de que o tigre estava realmente morto, o filho do caçador continuou pelo caminho das montanhas. Logo depois aproximou-se de uma velha que estava cavando batatas, num batatal. O jovem, que estava com fome, pediu:
— Minha velha, por favor, dê-me uma batata.
— Não tenho tempo para perder — respondeu à velha. — Meu marido acaba de ser morto por um homem mau. Sua alma veio até onde estou e disse-me que devo apressar–me a colher algumas batatas e levá-las, para que ele as coma. Desde que coma estas batatas tornará a viver. Por isso é que estou com pressa.
— Esquisito! — disse consigo mesmo o jovem; e olhou cuidadosamente para as mãos da mulher que cavava as batatas. Viu não mãos humanas, mas as patas peludas de um tigre. O filho do caçador levantou imediatamente sua espingarda e fez pontaria. Pum! E a anciã do batatal, com uma cambalhota, caiu transformada na velha fêmea do tigre.
O filho do caçador continuou seu caminho. Dentro de pouco tempo encontrou uma jovem que levava à cabeça uma jarra de água. O moço estava com sede e pediu:
— Quer, por favor, deixar-me beber um pouco de água? A jovem respondeu:
— Sinto muito, mas não posso parar. Estou com uma pressa tremenda. As almas de meu sogro e de minha sogra vieram dizer-me que eles foram mortos por uma pessoa maldosa, e pediram-me que lhes levasse água. Devo apressar-me com esta água, pois que quando eu lhes der de beber eles viverão novamente.
Assim dizendo, a moça apressava-se a seguir. Pela frente ela era, sem dúvida alguma, uma jovem, mas, por trás, era um tigre, com comprida cauda. O filho do caçador levantou a espingarda e atirou. Caiu não uma jovem, mas uma tigre fêmea, bem nova.
O filho do caçador continuou seu caminho. Pela estrada viu um jovem que vinha apressadamente em direção dele. O filho do caçador chamou-o:
— Olá, porque não vem sentar-se aqui, comigo? Conversemos sobre nossas viagens.
— Não, não posso perder tempo. Meus pais e minha esposa apareceram-me em sonhos, agora mesmo, e disseram-me que foram baleados por um homem mau. Pediram-me que fosse oferecer sacrifícios por eles. Se eu me demorar, será tarde demais para que possam voltar a viver.
Aquele jovem também tinha uma cauda longa balançando-se atrás dele. O filho do caçador imediatamente levantou a espingarda e deu no homem um tiro mortal. Quando o corpo do outro tocou o chão, já se transformara no de um esplêndido tigre jovem.
O filho do caçador estava satisfeito consigo mesmo, pelo fato de se ter visto livre de quatro tigres em tão pouco tempo. Sentia-se grandemente encorajado, e continuou sua viagem, cogitando no que estaria para lhe acontecer dali por diante. Depois de um pequeno espaço de tempo, viu um enorme animal, imenso, avô tigre, que devia existir havia mil anos.
O avô tigre, de pêlo branco, abriu sua grande boca para engolir o caçador. O jovem, rapidamente, fez pontaria e meteu uma bala na boca do tigre. Mas o tigre nem sequer piscou. O jovem continuou atirando, um tiro após outro, mas, de cada vez, o avô tigre cerrava os dentes, repuxava para trás os beiços, e deixava que as balas estalassem inofensivas, sobre seus caninos. Sem se deixar vencer pelo medo, o jovem continuou atirando no tigre. Mas, no fim, ficou sem balas, e foi engolido de uma só vez, espingarda e tudo, pelo avô tigre.
A garganta do tigre era um túnel escuro. Depois que o caçador passou por ele, chegou a um aposento vasto, tão grande como um campo de feira. Era o estômago do tigre gigantesco. O caçador ficou surpreendido ao ver espalhados por ali os ossos das pessoas que o tigre tinha comido. Pensou que seria capaz de encontrar os ossos de seu pai, e começou a procurá-los. Tal como pensara, encontrou os ossos de seu pai ao lado de uma espingarda de caça, na qual o nome dele estava gravado. O filho reuniu cuidadosamente aqueles ossos, e, amorosamente, colocou-os na bolsa de seu cinto.
Então, o jovem continuou sua pesquisa. Encontrou uma moça desmaiada, que jazia dobrada sobre si própria. O jovem caçador tomou à jovem nos braços e conseguiu fazê-la recuperar os sentidos. Ela olhou-lhe o rosto e agradeceu-lhe muitíssimo. Contou, então, que era a filha do ministro do rei, pessoa famosa na capital. A jovem contou como o avô tigre a havia roubado, bem na noite da véspera, enquanto ela estava lavando a cabeça na varanda de sua casa.
Os dois discutiram a angustiosa situação em que se viam e resolveram reunir suas forças para encontrar uma forma de sair do estômago do tigre. O jovem caçador tirou uma faca de sua cinta e cortou um buraquinho junto da cauda do tigre. Resolveram que a moça devia ficar junto do buraquinho e dizer ao rapaz se o tigre estava andando através de um campo, ou se estaria sobre alguma rocha escabrosa, ou às margens do mar. O filho do caçador começou a cortar as paredes do estômago do tigre. Como esse estômago era muito espesso, ele não conseguia adiantar-se muito, com sua faquinha. Cortou com todas as suas forças, e lentamente começou a alargar o corte inicial.
O tigre, de início, suportou as dores do estômago. Mas, quando elas cresceram, não mais pôde conservar-se imóvel. Foi a um médico amigo, um velho urso, e disse:
— Meu estômago dói terrivelmente. Você não tem um remédio para isso?
O urso respondeu:
— Não há motivo para preocupações. Coma bastantes frutas e depressa ficará bom.
O tigre, então, começou a comer maçãs e peras, a torto e a direito. O estômago do tigre ficou tal um grande mercado de frutas.
Afinal, sendo o enorme animal que era o avô tigre não se contentava em comer somente cem ou duzentas maçãs ou peras. Ia, simplesmente, aos pomares, e arrancava árvores inteiras. A moça e o rapaz apanhavam alegremente as frutas das árvores engolidas inteiras pelo tigre, e enchiam seus próprios estômagos. Agora, que tinham comido, sentiam-se muito mais fortes e encheram-se de coragem. Com redobrado zelo o jovem retomou seu trabalho de cortar caminho no estômago do tigre.
Por muita fruta que comesse, o tigre continuava a sentir cada vez maiores dores no estômago. Foi outra vez procurar o urso.
— Não me sinto bem. As dores em meu estômago parecem mais fortes do que antes.
O urso disse, então:
— Vá às fontes de águas minerais e beba aquela água. São boas para dores de estômago.
O avô tigre gigantesco foi à nascente e engoliu grande volume de água. O jovem e a moça, no estômago do tigre, beberam a água limpa e doce, e sentiram-se grandemente reconfortados. O jovem caçador redobrou seus esforços e manteve-se retalhando furiosamente o estômago do tigre.
Depressa o tigre já não podia mais agüentar as dores de seu estômago. Corria, como um animal enlouquecido. Saltava de rochedos altos, e disparava cegamente através das florestas, batendo-se de encontro às pedras e às árvores. Mas, por muito que se torcesse e virasse, não podia livrar-se da dor. Finalmente, mesmo o avô tigre chegou ao fim de suas forças, e cessou de se mover.
A moça espiou pelo buraco e viu que tinham a felicidade de estar no meio de um grande campo. Correu para o jovem e ajudou-o a rasgar o último pedacinho de carne que os separava da liberdade. Então, passaram para fora, sãos e salvos.
O jovem esfolou o tigre, pois queria levar para casa o belo pelame branco, como um presente. Depois, levando a moça pela mão, voltou para seu lar, onde a mãe o esperava. A mãe chorou, com lágrimas de alegria, ao ver seu filho voltar salvo de sua viagem.
Depois de ter enterrado os ossos de seu pai no cemitério da família, o jovem caçador levou a moça de volta à sua casa, na capital.
Palavras não podem descrever a alegria do ministro do rei, ao ver sua filha, voltando ao lar sã e salva. Como gratidão, o ministro do rei adotou o jovem caçador em sua família, para se tornar o marido de sua filha e herdeiro de seu nome e de sua fortuna.
O jovem voltou para buscar sua mãe e a anciã da hospedaria da montanha. E toda a família viveu junta, desde então, na casa do ministro do rei, com grande felicidade.

Fonte: Maravilhas do conto popular. Adaptação de Nair Lacerda. Cultrix, 1960.

O PÁSSARO MAVIOSO - Contos de Animais Maravilhosos


Era uma vez um rei muito rico e poderoso que tinha um filho muito acanhado. O rapaz ficava envergonhado por qualquer motivo e, por isso, todo mundo o julgava um grande tolo. Resolveu, então, seu pai mandá-lo visitar outros países, na esperança de torná-lo mais desembaraçado. Deu-lhe bastante dinheiro e ordenou que fizesse uma longa viagem.
Depois de percorrer vários países, o príncipe chegou a uma cidade, onde se realizava o leilão de um pássaro. Havia muita gente interessada em comprá-lo e, por isso, as quantias oferecidas já eram muito grandes. O rapaz ficou curioso para saber o motivo pelo qual todo mundo desejava adquirir o pássaro. Foi, então, informado de que o mesmo tinha um canto tão belo e mavioso que fazia dormir a todos que o ouvissem. O príncipe ofereceu uma grande quantia e conseguiu comprar o maravilhoso pássaro.
Continuou sua viagem e, mais adiante, encontrou outra cidade, onde estava sendo vendido, também em leilão, um pequeno besouro. Ficou admirado ao verificar que muita gente queria adquirir o animalzinho. Soube que o besouro era mágico e capaz de fazer tudo o que lhe fosse ordenado, sem ser visto. Podia até arrombar uma porta. Como tivesse ainda muito dinheiro, não foi difícil ao príncipe comprar o besouro.
Prosseguiu o rapaz na sua viagem e, pouco tempo depois, qual não foi sua surpresa ao deparar, em outra cidade, com o leilão de um rato. Havia uma multidão querendo adquirir o animal. O príncipe foi informado de que esse rato era capaz de fazer tudo o que lhe fosse ordenado. Tinha dentes mágicos, de modo que podia roer um castelo inteiro em poucas horas. Diante disso, o rapaz comprou o rato e continuou sua jornada.
Depois de visitar muitos países, chegou o príncipe a uma cidade onde presenciou um estranho espetáculo. Diante de um palácio, em cuja porta se achava uma linda moça, uma enorme multidão fazia toda sorte de caretas. Procurou saber a razão daquela cena esquisita, e foi informado de que a moça era a filha única do rei daquele país. A princesa, desde que nascera jamais havia sorrido. Por isso, seu pai oferecera sua mão em casamento àquele que a fizesse dar, pelo menos, um sorriso. Eis porque toda aquela gente estava diante do palácio fazendo caretas, na esperança de provocar riso na princesa.
Ouvindo isso, o rapaz, sem se importar com a multidão, aproximou-se do palácio, desceu do cavalo e dependurou a gaiola numa árvore que ali havia. Depois, sentou-se calmamente para descansar e ordenou: — Mestre rato vá buscar água para o cavalo e mestre besouro vá buscar capim. Os dois bichinhos saíram logo para cumprir as ordens do seu dono. Quando a princesa viu o rato carregando água e o besouro trazendo capim, achou tanta graça que soltou uma gostosa gargalhada. Os que estavam diante do palácio ficaram muito alegres, cada qual pensando ter sido o autor do riso da princesa. O rei, cheio de satisfação, perguntou à filha quem lhe havia feito soltar aquela gargalhada. A princesa apontou com o dedo o rapaz que descansava à sombra da árvore. Imediatamente, o rei mandou chamar o moço à sua presença e comunicou-lhe que devia casar com a princesa.
O rapaz, que era muito acanhado e que não esperava pelo acontecimento, quase desmaiou de susto. Mas, como palavra de rei não volta atrás, teve de se casar com a princesa. Na noite do casamento, mostrou-se, porém, tão embaraçado que a princesa julgou que ele não gostasse dela. No dia seguinte, disse ao pai que se havia enganado, pois havia sido outro o autor da sua gargalhada. O casamento foi então anulado, realizando-se o enlace da princesa com o filho do rei de um país vizinho.
O rapaz ficou muito triste, mas resolveu lutar para reaver a princesa. Ao cair da noite, foi para debaixo da árvore e, na hora de os noivos se recolherem aos seus aposentos, ordenou ao pássaro: — Canta mavioso! O pássaro começou a cantar e todo mundo, princesa, noivo, rei, guardas do palácio, convidados, caíram em sono profundo.
O jovem príncipe disse então: — Agora, besouro, vá ao quarto dos noivos e desarrume tudo o que lá encontrar. O besouro cumpriu a ordem e os aposentos dos noivos ficaram como se tivessem sofrido um terremoto. Os móveis foram quebrados, as roupas rasgadas, o teto e o assoalho do quarto despedaçados. Quando a princesa acordou e viu a desordem, ficou desesperada. O rei ficou muito aborrecido com o caso e prometeu à filha mandar pôr tudo nos seus lugares.
Na noite seguinte, o pássaro cantou novamente e todos adormeceram. O rato foi então enviado para desarrumar o quarto dos noivos. Se o besouro fez bem, o rato ainda fez melhor. Um furacão não teria feito maior estrago nos aposentos da princesa. Quando esta acordou, não teve mais dúvidas. Admirou o poder do seu primeiro noivo e viu que estava apaixonada por ele. Mandou o segundo noivo embora e contou tudo ao pai. O rapaz foi então chamado às pressas e realizou-se, novamente, o seu casamento com a princesa. Daí por diante, ele perdeu o acanhamento e viveu feliz e contente ao lado da sua bela esposa.

Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

O CAVALO MÁGICO - Contos Infantis de Animais Encantados


Mariana era uma moça bonita e inteligente. Morava num lindo palacete com seu pai, que era um rico negociante. No dia do seu aniversário, houve uma bela festa, em sua casa, à qual compareceram numerosos convidados.
Nessa festa, apareceu um rapaz simpático e muito bem vestido, que se apaixonou por Mariana. Pediu a moça em casamento e foi aceito, pois nada havia contra ele. O casamento realizou-se, pouco depois, com grande pompa.
Depois da cerimônia, quando Mariana se preparava para acompanhar o marido, apareceu-lhe Nossa Senhora, sua madrinha, que lhe disse o seguinte:
— Minha filha, fique sabendo que você se casou com o Diabo, metido na figura desse moço bonito. Depois da festa, quando ele quiser levá-la para casa, deverá você dizer a seu pai que prefere o cavalo mais magro e mais feio que houver na estrebaria; e, quando chegar ao lugar em que a estrada se encontra com outra, formando uma cruz, deixe seu marido seguir pela esquerda; você tomará à direita e mostrará ao Diabo o rosário, para que ele estoure e volte para o inferno.
Pouco antes da meia-noite, o marido resolveu partir com a moça, mandando selar os cavalos. Veio para Mariana um lindo cavalo branco, muito gordo. Mas a moça recusou-o, dizendo que preferia o cavalo mais feio e magro que estivesse na estrebaria. Seu pai estranhou o pedido, mas atendeu ao desejo da filha.
Os noivos partiram. Quando chegaram ao lugar em que a estrada formava uma cruz com outra, o Diabo quis que a moça tomasse à esquerda e passasse adiante. Então, Mariana disse:
— Não, vá na frente você, que sabe o caminho de sua casa. Eu nunca fui lá e jamais irei. Dizendo isso, Mariana tomou logo à direita e mostrou o rosário ao marido.
Ouviu-se, então, um grande estouro. A terra abriu-se, deixando sair um forte cheiro de enxofre. E o Diabo sumiu nas profundezas do inferno.
Mariana disparou o cavalo e, quando estava bem longe, entrou na floresta e vestiu uma roupa de homem, de cor verde. Continuou a viagem e, chegando à capital do reino, foi servir no exército. Pouco depois, foi promovida ao posto de sargento e, devido à cor de sua roupa, ficou sendo conhecida por Sargento Verde.
O rei simpatizou com o garboso sargento e mandou-o servir na guarda do palácio. Quase todas as tardes, quando ia passear no jardim, o rei levava consigo o Sargento Verde e acabou tomando-lhe grande amizade.
A rainha, quando viu o Sargento Verde, ficou logo apaixonada por ele. Tentou, por diversas vezes, seduzi-lo, dizendo que mataria o rei, se ele prometesse casar-se com ela. Mas o Sargento Verde respondia sempre:
— Deixe-me em paz. Nunca trairei o meu soberano.
Desapontada com a recusa do Sargento, a rainha resolveu vingar-se. Procurou o marido e disse-lhe:
— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde declarou que é capaz de subir e descer as escadas do palácio, montado no seu cavalo em disparada, dançando e atirando ao ar três ovos, que tornarão a cair dentro de um copo, sem se quebrarem.
O rei, admirado, mandou chamar o Sargento Verde e perguntou-lhe se era verdade.
— Eu não disse tal coisa, real senhor, respondeu o Sargento. Mas como foi a rainha, minha senhora, que o afirmou, vou tentar fazê-lo.
O Sargento Verde saiu dali muito triste. Sentou-se à porta de sua casa. Com grande espanto, viu seu cavalo aproximar-se e dizer-lhe:
— Não tenha receio, meu senhor. No dia marcado, faça o que prometeu, e tudo sairá bem.
Assim foi. O Sargento Verde fez tudo o que a rainha tinha inventado. O povo deu-lhe muitos vivas e o rei apertou-lhe a mão, admirado de sua habilidade.
A rainha não desistiu de se vingar. Alguns dias depois, procurou o rei e disse-lhe:
— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde declarou que é capaz de plantar, na hora do almoço, uma laranjeira do tamanho de um palmo, e que, à hora do jantar, já estará carregada de laranjas.
O rei chamou o Sargento e ordenou-lhe cumprir sua palavra. Com o auxílio do seu cavalo mágico, ele conseguiu fazer tudo, como da primeira vez, sendo muito aplaudido pelo povo.
A rainha ficou furiosa, mas não desanimou. No fim de três dias, procurou o rei e pregou nova mentira:
— O Sargento Verde declarou que é capaz de ir buscar a irmã de Vossa Majestade, que está encantada no fundo do mar.
O rei ficou muito satisfeito e deu ordem ao Sargento para que cumprisse a promessa. Mariana ficou aflita. Achava que, desta vez, nada poderia fazer e seria enforcada. Mas o cavalo mágico tranqüilizou-a:
— Não tenha receio. Arranje um garrafão de azeite, um punhado de cinza e uma carta de alfinetes. Monte em mim e, quando chegar à praia, corte as ondas em cruz com a sua espada. As águas abrir-se-ão. Entre pelo mar adentro até chegar à caverna onde se acha a princesa encantada. Rapte-a, ponha-a na garupa e corra, para trás, a todo o galope. O dragão que guarda a princesa sairá em nossa perseguição. Assim que ele estiver perto, derrame, primeiro, o azeite, depois a cinza e, por último, a carta de alfinetes.
Mariana fez tudo como o cavalo havia ensinado. Raptou a princesa e voltou na disparada. O dragão perseguiu-a. Quando estava bem perto, ela derramou o garrafão de azeite. Formou-se uma grande lagoa, onde o dragão quase se afogou. O monstro conseguiu sair da lagoa e continuou a perseguir os fugitivos.
Quando estava quase a alcançá-los, Mariana atirou um punhado de cinzas. Formou-se um espesso nevoeiro. O dragão custou a atravessá-lo, mas não desanimou de perseguir os fugitivos. Continuou a correr em seu encalço. Quando estava quase os agarrando, Mariana jogou para trás a carta de alfinetes. Formou-se, então, um bosque de espinhos no qual o dragão se debateu e acabou morrendo.
Quando chegaram ao palácio, foram recebidos com grande alegria. Mas o rei não ficou de todo satisfeito, por que; i princesa, salva do monstro, nada dizia. Estava muda. Mariana consultou o cavalo e este lhe disse:
— Apanhe as minhas rédeas e bata com a mesma três vezes nas costas da princesa, e ela falará.
O Sargento seguiu o conselho do cavalo. Então, a princesa desencantou-se e voltou a falar. Suas primeiras palavras foram estas:
— Se o Sargento Verde fosse homem, o rei, meu irmão, teria sido enganado pela rainha.
Diante disso, Mariana despiu a farda e voltou a usai trajes de moça. O cavalo desencantou-se e virou um príncipe muito bonito que se casou com a princesa. E o rei, indignado com o procedimento da esposa, divorciou-se dela e condenou-a a prisão perpétua. Mais tarde, casou-se com Mariana que, assim, se tornou rainha.

Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional